quinta-feira, 12 de junho de 2014

Palácio da Independência - 6 Junho 2014

Anos atrás, dirigindo-me a um jantar que teve lugar no Palácio da Independência, passei por este pátio, que me encantou. E decidi que havia de visitá-lo a preceito. Foi agora.

Inicialmente, o Palácio chamava-se (dos Condes) de Almada, família muito antiga, descendente de cruzados ingleses que ajudaram à conquista de Lisboa. Em recompensa do que D. Afonso Henriques lhes doou uns terrenos em Almada, sendo essa a origem do título. 

As primeiras notícias remontam a 1467, data de um documento que refere que D. Fernando de Almada, capitão-mor de Portugal, compra "umas casas" neste local.

É o filho, D. Antão, que ordena a construção do palácio inicial, onde se incluíam as chaminés. Situava-se entre o Palácio dos Estaus e o Real Hospital de Todos os Santos, junto à Porta de Santo Antão, um dos arcos da muralha fernandina.

No século XVII, por oferecimento de D. Antão Vaz de Almada, aqui se reuniam os conjurados, que entravam discretamente pela porta traseira do palácio. Entre eles, D. João Pinto Ribeiro, procurador da casa de Bragança em Lisboa. (A defenestração de Miguel de Vasconcelos não teve lugar aqui, mas sim no Paço Real, na actual Pr. Comércio).

A actual fachada data do século XVIII, levantada durante a campanha de obras levada a cabo por ordem de D. Lourenço de Almada.

1755 provocou poucos danos no palácio, tendo até as cavalariças sido utilizadas para receber doentes resgatados do Real Hospital de Todos os Santos, que ruiu completamente.

Por esta altura, a família vai para os Açores, para se ocupar da respectiva Capitania.
Volta em 1774, com muito dinheiro, mas encontra  palácio muito degradado. Promove então obras de restauro. É nesta altura altura que é desenhado o jardim de buxo e as casas de fresco

Em 1833, sendo a família miguelista, sai definitivamente do palácio, por confisco deste.

Com o liberalismo, instala-se no palácio a "Comissão da Reforma Geral dos Estudos deste Reino", de que era secretário executivo Almeida Garrett.

Em 1835 o palácio é devolvido à família, que não volta, contudo, a habitá-lo, preferindo alugá-lo: o Liceu Francês, o Quartel-General da 1ª Divisão, e diversos estabelecimentos comerciais, figuram entre os locatários.

Em 1861, a Comissão Central 1º de Dezembro de 1640, fundada (por, entre outros A. Herculano) para combater as teses iberistas, é autorizada a instalar-se numa sala do Palácio.

É esta entidade (que, a partir de 1927, adopta o nome de Sociedade Histórica da Independência de Portugal) que organiza uma emissão de selos e rifas, bem como uma recolha de fundos junto dos emigrantes, para custear as obras de restauro do palácio,  efectuadas em 1939 por Raul Lino.
Inaugurado o novo edifício em 1940, é nesta altura que o seu nome se altera para Palácio da Independência.
Deveria ter sido ocupado pela SHIP, Museu da Restauração e Mocidade Portuguesa. Mas esta última vem a ocupar demasiado espaço e o Museu transita para Vila Viçosa.

Ocupado no 25 de Abril, o palácio serviu de sede à ADFA até 1993, data em que a SHIP passou a ser o único inquilino.

Pátio principal:



Conjurado (?) não identificado


Âncora romana - reconstituição baseada nos cepos descobertos em Sesimbra, no mar do Ancão, a 25 metros, pelas brigadas de mergulho, em Junho e Agosto de 1968

O grupo dos conjurados, digo, visitantes, com a nossa enérgica e erudita guia. Infelizmente havia pouca luz e a foto tremeu-se

Biblioteca:


Que ignorância a minha: eu, que sempre me perguntei que mente perversa teria Shakespeare, para ter inventado aquela angustiante sequência de equívocos mortais, no "Romeu e Julieta", venho a saber, nesta altura do campeonato (shame on me!), que o homem se inspirou nos amores de Píramo e Tirbe, presentes nas "Metamorfoses" de Ovídio, e aqui retratados

Tecto da Biblioteca

Pátio interior - painéis de azulejos de Gabriel del Barco, separados durante as obras conduzidas por Raul Lino. Serão brevemente repostos na sua localização e conjunto originais:




Jardim:



Reconstituição das reuniões conspiratórias. O ancião era D. Miguel de Almeida, que, apesar dos seus 83 anos, participou no complot

Janelas de reixa (ou mushrabiyas)  
Trata-se de um elemento de inequívoca influência árabe, e como tal, mais presente no sul da Península Ibérica (Andaluzia, Algarve e Alentejo).
Estas janelas são referidas pelo historiador Oliveira Marques na sua emblemática obra “A Sociedade Medieval Portuguesa”:
“Usavam-se muito as chamadas  “mushrabiyas”, espécies de varanda ou marquises de fechadas por um gradeamento de madeira. A “mushrabiya” permitia a livre curiosidade feminina, exactamente como a persiana de hoje; contribuindo também para refrescar os aposentos em regiões bem mais sujeitas aos calores estivais do que aos frios do inverno.” (Esclarecimento da nossa guia)

Casa de fresco

Cisterna

Trilogia de azulejos datando da construção do jardim:
a conjura, ...


...a proclamação da independência...


... e a aclamação de D. João IV

Tudo vestidinho à século XVIII, época de realização dos azulejos


Ao fundo do jardim, a muralha fernandina (do outro lado é já a "Casa do Alentejo"!), que proporciona excelentes vistas:




Entrada para o Kantina - Inatel Chaminés do Palácio, iniciativa conjunta da Inatel e da SHIP, onde almoçámos


Uma das chaminés, vista de baixo:


Se gostámos?! A sopa de cação e o manjar de grão falam por si!





Para visitar o Palácio da Independência, contactar: ship.actividadesculturais@ship.pt

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

Hospital de Sant'Anna - 25 Fevereiro 2014

No "Comboio nocturno para Lisboa", a cena em que o professor Gregorius visita o tio João desenrola-se num ambiente em que se vê um friso de belíssimos azulejos arte nova.

Levei vários meses até conseguir identificar que os azulejos se localizavam no Hospital de Sant'Anna. Assim que tive conhecimento de que a Santa Casa Misericórdia de Lisboa, proprietária do Hospital, promovia visitas guiadas (terceira quinta-feira de cada mês), precipitei-me!

O Hospital foi fundado como sanatório para meninas pobres que tivessem contraído tuberculose, por uma senhora chamada chamada Claudina Chamiço, viúva de Francisco Chamiço, homem endinheirado que possuía roças em S. Tomé, fundou o BNU, esteve na base da fundação do Totta e chegou a adquirir o actualmente tão famoso Palácio Ratton. Gente de posses, portanto!

A história é complicada, havia várias mortes por tuberculose na família, o projecto não arrancou à primeira e quem teve que agarrá-lo foi a enérgica septuagenária.

Entrada do Hospital e pormenores da fachada:




A capela é um deslumbramento para os apreciadores de arte nova e para os entendidos em simbologia (sendo que eu só pertenço ao primeiro grupo!).
Não por acaso, o arquitecto foi Rosendo Carvalheira, maçon, igualmente autor do projecto da "Abadia" do Palácio Foz.


Pormenor da cúpula da ábside e do óculo que se lhe sobrepõe:




Tecto e pormenores dos cachorros:




Paredes da nave:



Capitéis da nave:




Logotipo da instituição, que ainda hoje se mantém:




Pátio interior. Os pequenos torreões (vista interior na foto de baixo) e os vários "andares" do telhado tinham fins de ventilação. Com efeito, Rosendo Carvalheira pensou o edifício ao pormenor, em termos da sua funcionalidade.


Tão encantada andava, que me esqueci de perguntar pelo corredor que aparece no filme! Mas fui largamente compensada por este espaço, chamado Jardim de inverno, onde as crianças brincavam quando o tempo não lhes permitia irem para o solário, exterior:











Pormenor de requinte: os azulejos representam plantas que têm aplicações medicinais. Já na fachada marítima, os azulejos exibem fauna e flora marítimos:









Vagonette de transporte de roupa para a lavandaria, edifício que, por razões óbvias, ficava afastado das instalações principais. Parece que o edifício também merece visita. Mas o estado de degradação em que se encontra não oferece segurança.

Webgrafia: | Hospital de Sant'Anna | Francisco Chamiço | Palácio Ratton | Rosendo Carvalheira | Alguma bibliografia (embora apresentada de forma não muito amigável)

" Quem se aproxima de Cabeço de Montachique vindo de Loures pela desgastada EN374 não consegue deixar de reparar, a curta distância, nas ruínas que se erguem na encosta do cabeço. Os locais adoptaram-no como castelo, há quem lhe chame palácio, mas a estrutura imponente tem mais semelhanças com uma fortaleza. Ergue-se ali há quase uma centena de anos e encerra em si um bom punhado de histórias e de lendas. Corria o ano de 1918 e Francisco de Almeida Grandella, em nome da "Sociedade dos Makavenkos" doava um terreno de 3500 metros quadrados para a construção de um edifício destinado ao tratamento e internato temporário de doentes de tuberculose. Juntou-se o gesto solidário do arquitecto Rosendo Carvalheira, que criou um grandioso projecto para o edifício. "O conjunto do projecto é muito simples, gracioso e pitoresco e fortemente inspirado em motivos portugueses", escrevia a "Arquitectura Portuguesa" em Julho de 1918.
Rosendo Carvalheira acabaria por não sobreviver para assistir ao lançamento da primeira pedra deste grandioso feito. A esta festa, compareceu a aristocracia da época, o que não impediu que desde logo existissem algumas limitações no que toca ao financiamento da obra. Até há alguns anos, dizia-se que junto às fundações do edifício se tinha enterrado uma caixa onde o povo anónimo colocaria os seus singelos donativos. Um cofre bem seguro, à prova de roubo. Um tesouro.
O projecto era vendido a 5 centavos. Rezava que o Sanatório Albergaria pretendia "minorar quanto possível a miséria e a doença no meio da crise tremenda por que está passando o mundo inteiro" e apelava "aos novos ricos, que têm feito fortunas fabulosas com os lucros da guerra" para que doassem "uma pequena parcela dessa enorme riqueza" às vítimas dessa mesma guerra. Porém, o apelo não teve resposta e depressa se parou com a construção, tendo a ideia morrido ali. Todas as expectativas geradas em torno do projecto acabaram por sair goradas.
O Sanatório Albergaria continua de pé, tal como foi deixado há quase cem anos.
E o cofre escondido? Continuará por lá?"